segunda-feira, 4 de julho de 2011

Trabalho Infantil Doméstico

Situação extremamente grave, mas muito difícil de mensurar são as crianças e adolescentes submetidos ao trabalho doméstico. Teria sido ótimo se esta matéria incluísse a história de um destes ou destas trabalhadoras. Geralmente meninas, recebem a delegação de cuidar da casa e de irmãos menores para que os pais trabalhem. Isto acontece aos oito ou nove anos, em alguns casos. Há relatos até mais drásticos, de uma menina de seis anos que, além de cuidar da casa, era a responsável por sua avó, acamada e completamente dependente. A menina tinha que dar remédios, cuidar da higiene da idosa e ainda manter a casa.

Chego a acreditar que este número seria ainda maior que aqueles que trabalham nas ruas. Pais cheios de cuidados, preocupados com suas famílias e que não consideram um problema, afinal, sua filha está em casa e não nas ruas ou com más companhias. Como não há relação financeira neste trabalho, para a maioria das pessoas nem é considerado enquanto tal. A visão míope do senso comum, ainda admite o trabalho nas situações de miséria por não vislumbrar alternativas para a família. Como ficam no "fazer o que, né?", sem que lhes sejam apresentadas as ações viáveis e comprometida com a conquista de direitos dessa família, desconsideram completamente o comprometimento do futuro destas pequenas brasileiras.

Crueldade? Não creio que seja. Trata-se mais propriamente de alienação que o faz cumplice do status quo. É preciso investir num processo de educação política que desvende o olhar e os empodere para o enfrentamento deste quadro. Isto é diferente da mera pregação ideológica. Trata-se do fornecimento de instrumentos reflexivos para que cada um se defina diante do projeto de sociedade que queremos. É condição para pensarmos a democracia e começarmos a construí-la.

É claro que a informação e a formação tem potencial transformador, mas isso é uma decorrência do fato, uma aposta mais especificamente. Não é legítimo distorcer a realidade para privilegiar seu ponto de vista, mas desvendar o mundo, expondo suas entranhas de maneira honesta é importante e justo. Sobrarão sempre controvérsias sobre as informações utilizadas, mas o ganho em termos de capacidade crítica e organizativa serão irreversíveis.

O compromisso ético-político com o futuro destas meninas não pode nos abandonar jamais. É preciso sentir o amargo na boca por sermos todos cumplices desta situação. Não basta a comoção piegas ao ler a reportagem. É preciso mais, mas em que direção é uma questão a ser respondida por cada um. Qualquer que seja a recomendação de ação genérica será mero messianismo, por desconsiderar a história de cada um e seu lugar na sociedade atual. Não há receita e isso é maravilhoso. Temos que construir coletivamente as alternativas. Com nossa diversidade poderemos ter ainda mais alternativas...

* Este texto foi postado como comentário de uma matéria publicada no Blog do Nassif. Achei que pode interessar a leitura de mais alguém

terça-feira, 21 de junho de 2011

"Ele nega as acusações"

Agora há pouco eu lia uma matéria jornalística na qual uma pessoa era acusada de um crime e onde, por parágrafos e mais parágrafos se detalhava o "suposto" crime cometido pelo "suposto" criminoso. Ao final do texto, como que para cumprir um ritual profissional, uma espécie de "outro lado", afirmava que o acusado nega as acusações.
Fiquei imaginando o sorriso cínico do jornalista ao escrever estas palavras... Depois de deitar e rolar, incluindo aí o exercício da criatividade das insinuações, acusações anônimas ou identificadas, pareceres genéricos de especialistas, recursos gráficos e notas explicativas, do tipo "entendendo o caso", onde em poucas linhas se tinha a montagem do raciocínio recomendado para a história, um ". "resumo executivo"; ele insere a praxe que o isenta de uma eventual cobrança por suas leviandades.
Estava lá, escrito no próprio texto, nem precisava nem adiantava pedir direito de resposta. O acusado foi ouvido. Por óbvio, negou as acusações, tanto faz se por ser inocente e ter todos os motivos para contestar cada item apontado, ou se por ter praticado o crime e não querer confessá-lo. A segunda hipótese ficará soando na cabeça do leitor, ou expectador. "Ele fez e agora ainda tem a cara de pau de negar as acusações!"
Com que prepotência um sujeito comete tal assassinato de reputação? Tendo ou não cometido um crime, quem confere ao jornalismo o direito de impingir à pessoa tal detratação? Em algum momento, algum regulamento, escrito na forma de lei ou não, definimos que vamos enxovalhar aquele que cometer um crime? Queremos ver a pessoa exposta aos olhos devoradores da população, guiados pelos escrúpulos dos jornalistas?
E se um dia, com ou sem motivo, tiveres a desgraça de ser o acusado. De repente, nem sei por que circunstância, ficar no olho do furacão da notícia, acusado de ter cometido um crime? Suponhamos os motivos mais vís, apenas para estabelecermos uma referência. De caso pensado, por uma vingança pessoal, por exemplo, alguém procura um jornalista (ou até por iniciativa própria de um deles) e o acusa de ter tramado a morte dos pais para ficar com uma herança. Imaginou o horror que poderia ser montado e o inferno que isso iria transformar a tua vida? Não seria difícil construir um enredo convincente. Observe que não se está afirmando que matou os pais, porque isso seria facilmente desmascarado. A acusação tem um grau de insinuação de difícil comprovação e, por implicação, difícil contestação. Dizer "mas eu não fiz isso", não convenceria ninguém. Responder que ao acusador cabe o ônus da prova, como diz a máxima jurídica, seria o quase um equivalente a uma confissão na próxima "reportagem" ou na edição seguinte do periódico.
Vejam bem, não estou fazendo uma acusação concreta a um jornalista, o que implicaria em ter que provar a má-fé, mas estou chamando à nossa reflexão o risco que corremos na forma que estamos procedendo. É fundamental a liberdade de expressão como garantia da democracia. A censura, por menor que seja, é uma agressão, mas é indispensável um mecanismo mais agudo para cobrar a responsabilidade da imprensa. Que não se fale em imposição de "auto-censura" na medida em que a penalização do jornalista teria que seguir todo o trâmite judiciário. Se este não é adequado ou suficiente, não tem sido para todos, especialmente para aqueles que não tem recursos para pagar um advogado-celebridade, para não falarmos em "bons advogados", que implicaria em acusar os demais de não serem tão bons. Para fazer uma boa defesa, bem fundamentada, com dedicação é mesmo necessário cobrar a fortuna exigida por algum deles? O que justifica o valor, que não a grife de sua assinatura?
Eu sinceramente espero nunca estar na pele de alguém sub-julgado a negar acusações. Não há crueldade maior do que daquele que tem a certeza da impunidade!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Contribuição: Coisas que Aprendi na Vida

Recebi este texto como contribuição ao Blog, da Adriana Freitas de Carvalho. O autor é desconhecido mas o texto vale a pena:

Coisas Que Aprendi na Vida

Aprendi que não importa o quanto eu me importe, algumas pessoas simplesmente não se importam; que não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isto; que levam anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la; que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias; que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pela vida inteira; que o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida; que não temos que mudar de amigos se compreendermos que os amigos mudam; que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa; que devemos deixar sempre as pessoas que amamos com palavras amorosas.Pode ser a últimas vez que a vejamos; que as circunstâncias e o ambiente têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmo; que não devemos nos comparar com os outros, mas com o melhor que podemos fazer; que não importa onde já cheguei, mas para onde estou indo; que leva muito tempo para eu me tornar a pessoa que eu quero ser; que posso ir mais longe depois de pensar que não posso mais; que ou você controla seus atos ou eles te controlarão; que paciência requer muita prática; que existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem demonstrar isso; que meu melhor amigo e eu podemos fazer qualquer coisa, ou nada, e teremos bons momentos juntos; que algumas vezes a pessoa que espera que o chute quando você cai, é uma das poucas das que lhe ajudarão a levantar, que há mais dos meus pais em mim do que eu supunha; que quando estou com raiva, tenho direito de estar com raiva. Mas isto não me dá o direito de ser cruel; que só porque alguém não o ame do jeito que você quer, não significa que não o ame com tudo o que ele pode; que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém. Algumas vezes você tem que aprender a si perdoar.

sábado, 3 de julho de 2010

ENVELHECER: O meu visu...

De meu amigo José Antônio Alves Tabajara:

Envelhecer é a fase da vida que nos expõe ao teste máximo de coragem. A consciência de que estamos no "corredor da morte" torna amargo o sabor dos restos do banquete da vida; A vista dos escombros de nossa imagem física, e o decréscimo de nossas funções vitais, nos desafiam a dar um sentido útil a esse resto de existência. Útil para quem, se não teremos tempo para saboreá-lo? Eis a questão! Essa cogitação nos convoca automaticamente a inventariar as sobras dos "talentos" que recebemos no início da jornada. Dissipamos o capital inicial da vida - e nos tornamos nús como nascemos - ou multiplicamos aqueles talentos e nos tornamos ricos? Nesta segunda hipótese, poderemos encarar sem medo o fantasma da velhice. Obviamente não me refiro ao entesouramento de bens materiais, mas à sabedoria forjada nos tropeços da existência. Aquela que nos permite oferecer aos que ficam a visão nítida dos caminhos e descaminhos da jornada. Então, o que legar aos sobreviventes? Nada alem nem aquem do que temos. De minha parte, dedico-me a identificar as falhas institucionais no campo do Direito, e sugerir as necessárias correções. Cedo ou tarde, no todo ou em parte, essas sementes serão reconhecidas e melhoradas por quem detiver o poder e a vontade para plantá-las. Então estarei sorrindo depois da velhice. Saudações, José Antônio Alves Tabajara.

sábado, 22 de maio de 2010

Envelhecer

É fundamental envelhecer! Não se trata de se afastar da data de nascimento simplesmente, nem tampouco de tripudiar sobre a juventude como se ela fosse uma doença. Envelhecer enquanto amadurecer, é tornar-se melhor, seja lá o que se faça.
Há quem afirme que a juventude tem a leveza e a ousadia, enquanto com o envelhecimento as perderíamos. Não considero essa perda necessária. Trata-se mais precisamente de um abandono que só alguns o fazem, acredito que por covardia. Ousar é perigoso e difícil. Mais que meramente arriscar-se, ousar é criar, inovar, inaugurar a existência de coisas que superam o presente. Quando envelhecemos com a ousadia, ganhamos a consistência que a experiência pode nos trazer.
O mundo está cheio de velhos que não amadureceram. Apenas assistiram a vida passar e, muitas vezes, afirmam com orgulho que fazem a mesma coisa a tantos anos, no mesmo lugar e da mesma forma. Isso é patinar na vida e não envelhecer.
Que vivam os jovens, com sua arrogância ingênua de quem descobre o mundo. Que viva quem envelheceu lentamente, colhendo saberes de cada vivência e saboreando os momentos na forma de crescimento humano. Que pereçam aqueles que ainda acreditam, estupidamente, que a idade corresponde ao envelhecimento e esperam que o tempo lhes traga alguma significância, que por si não souberam construir na vida.

quinta-feira, 11 de março de 2010

PALESTRA: CRISE ATUAL E OS DESAFIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Recebi como contribuição, as anotações de Fernando Anísio Batista, de uma palestra ocorrida na UFSC. Vale a pena a leitura...

PALESTRANTE: PROF. IGNACY SACHS
DIA: 11.03.2010 (QUINTA-FEIRA)
HORÁRIO: 09 - 12 HS
LOCAL: AUDITÓRIO DA REITORIA
PROMOÇÃO: IELA-UFSC E CALE-ECONOMIA

Falar em crise não é mais nenhuma novidade na atualidade. Mas encontrar respostas para a crise é muito mais desafiador. Portanto, toda crise desperta para uma reação, que pode ser para resistir e reafirmar uma proposta, mesma se for ela que provocou a própria crise, ou então, aproveitar a crise para uma mudança de rumo.

A crise que estamos vivendo tem duas grandes características. A primeira é que é uma crise conjuntural do sistema capitalista, que tem provado a ineficiência do sistema.A segunda é que é a terceira grande revolução da coevolução da espécie humana.

Vejamos quais foram as duas primeiras revoluções. A primeira grande revolução foi intitulada como Revolução Neolítica, ou seja, ocorreu aproximadamente a 12 mil anos atrás quando o homem conseguiu “domesticar” as plantas e os animais. A segunda grande revolução aconteceu entre os séculos XVII e XVIII, onde iniciou o processo de utilização das energias fósseis (petróleo e carvão).

Atualmente temos uma quantidade de lançamento de gases poluentes no ar, o que resulta no aquecimento global. Estamos próximos da exaustão dos recursos naturais de fácil acesso (como é o caso do petróleo). Então a terceira grande revolução trata-se da era pós petróleo. Contudo a resposta para esta crise não deve ser feita de forma simplista, baseada apenas no meio ambiente e no debate da matriz energética. É necessário ampliar o debate e incluir na pauta a desigualdade social.

Estamos vivendo uma catástrofe social e natural. É perigoso falar simplesmente na catástrofe natural. Os dois grandes desafios desta crise são o ambiental e o social, sendo que as soluções devem ser socialmente encludente e ambientalmente sustentáveis.

Quais são os paradigmas que a crise apresenta?

1º) Paradigma Energético: é necessário repensar a fonte de energia, repensar o padrão de consumo.

2º) Eficiência Energética

3º) Substituição Energética: abre um leque de alternativas muito grande, além da bioenergia temos várias gerações de matrizes energéticas que podem ser ampliadas. Como podemos ver a seguir:

- Etanol (primeira geração): esta sendo bem trabalhada, mas é preciso ampliá-la sem colocar em risco a segurança alimentar.

- Etanol celulose (segunda geração): composto com resíduos vegetais, o que acabará com a competição entre a segurança alimentar e o modelo energético.

- Biocombustível (terceira geração): é composto por micro algas marinhas e aquáticas.

- Fotosintese Assistida (quarta geração): tratasse da realização da fotosintese em uma estufa com a inclusão de gases (como o carbono) a qual gerará energia. Este modelo está em fase de estudos para ser implementado no deserto e abastecer energicamente muitos países da Europa.

Estes modelos de matrizes energéticas têm baixa emissão de carbono na atmosfera, isso não significa que não vamos utilizar o carbono.

Outro elemento importante para analisar a crise e buscar respostas a ela é perceber quais são as margens de liberdade que temos para progredir, para se desenvolver. Neste sentido podemos destacar algumas, conforme segue:

- Repensar o modelo energético;

- Promover a rede sócio assistencial ampliada a partir do conceito de direito universal;

- Expansão do perímetro da economia solidária dentro do mercado capitalista (contra a apropriação individual do lucro);

- maior seriedade nas relações internacionais, sendo que o modelo de globalização que temos no momento é voltado para o favorecimento dos países ricos.

- Maior aproveitamento dos recursos naturais, buscando um desenvolvimento a partir de dentro, com as potencialidades e possibilidades locais.

Voltar à arte de planejar

O modelo de desenvolvimento social, econômico e ambiental que temos é refém da falta de planejamento. O planejamento aponta onde queremos chegar. Hoje não temos esta resposta.

O planejamento é uma vitima da contra reforma neoliberal que tem ocorrido a partir dos últimos 30 anos. A agenda 21 proposta no Rio de Janeiro em 1992 ficou na contra mão do processo neoliberal vivido nos anos 90. Desta forma, não foi possível planejar ações que favorece sua aplicação.

A necessidade atual é de construir um planejamento que inclua temas e paradgmas que a crise apresenta e não consegue dar respostas, tais como: inclusão social, modelo energético, relações de trabalho horizontalizadas, etc.

Este planejamento deve ser democrático e que envolva as seguintes categorias representativas:

- Estado democrático de direitos;

- Trabalhadores;

- Empresários;

- Sociedade Civil Organizada;

Deve ser dialógico, reflexivo e continuo. Por isso, deve ser diferente do modelo soviético. Na sua metodologia pode promover novos ciclos de planejamento abrangendo diversos níveis, com diagnósticos participativos que respondam as seguintes perguntas: o que está doendo? Quais os problemas devem ser atendidos? Avaliação dos potenciais latentes da economia. Como dinamizar a economia local?

O planejamento pode ser visto como uma estratégia em longo prazo, envolvendo a nação, biomas territórios, estados e municípios. Poderá ter o seguinte tripé: pegada ecológica, biodiversidade e trabalho descente.

Nos anos de 2012 acontecerá no Rio de Janeiro a II Cúpula da Terra e em 2022 será o bicentenrio de libertação dos países latinos americanos. Podem ser dois grandes momentos para voltar a planejar.

Anotações feitas por Fernando Anísio Batista
e-mail:
fernandoanisio@hotmail.com

sábado, 16 de janeiro de 2010

O Desafio é Pensar Grande

Em primeiro lugar é preciso salientar que o objetivo deste texto não é fazer apologia a este governo, mas sim refletir sobre o momento histórico vivido pelo Brasil frente ao restante do mundo.

Por muitos anos fomos um país de segunda categoria, chamado de terceiro mundo, países em desenvolvimento, quiçá países emergentes ou algo que o valha. Certo é que retratamos em nossa história um discurso de país capitalista, como se fizéssemos parte de um clube, sem que as benesses deste sistema alcançassem a maioria da população. Uma fraca resistência de esquerda, em suas mais diferentes matizes, também esteve sempre presente, auxiliando a aparar alguns arroubos do chamado capitalismo selvagem. Denunciar a conjugação da exploração econômica e humana, tanto nas situações do trabalho escravo, quanto na escassez de direitos por parte dos trabalhadores e a expansão das políticas chamadas "sociais", é um mérito inequívoco do trabalhismo nestas terras. Acrescente-se a isto, um nível de violência urbana e rural, claramente arraigada à condição de classe, faixa etária juvenil, masculina e afro descendente.

Eles elementos, amalgamados por uma cultura múltipla e riquíssima na criatividade, pluralidade e alegria, compõe um quadro minimalista de nossa condição.

Ocorre que os ventos sopram a nosso favor. A relativa estabilidade econômica, construída à duras custas da qualidade de vida dos trabalhadores dá a base para mudanças em diferentes âmbitos desta sociedade. A retomada, ainda que lenta, dos investimentos produtivos em detrimento da especulação financeira nominal, ou fantasma econômico, desponta como um desdobramento crucial neste processo. Na sequência, um investimento visível em políticas sociais, esta sim com a digital da atual gestão federal. Destaques para as políticas de transferência de renda e assistência social, e também para o início do longo processo de qualificação da educação nacional e resgate do SUS, ainda que o caminho seja maior pela frente do que a parte já trilhada. Na mesma balada a criação das bases de uma nova segurança pública, a segurança cidadã, apesar de ainda muito distante da prática dos órgãos de repressão.

Os investimentos em infra-estrutura urbana e na habitação, bem como a valorização da agricultura familiar, mesmo que contraditória com o apoio público à agroindústria predatória, abrem perspectivas sustentáveis para um ciclo de desenvolvimento.

O acervo de recursos naturais, apesar de toda a devastação sofrida em décadas de descaso, representa uma condição privilegiada no mundo. Quem pode desfrutar tamanha diversidade, potencialidade energética e distribuição geográfica, como a nossa? Some-se a isso a descoberta e desenvolvimento tecnológico para exploração de petróleo do pré-sal e, da mesma forma, nossos inigualáveis mananciais de água potável e condições para geração de energia, hidroelética, eólica, solar e a bioenergia. Isto tudo oferece insumos sem precedentes, para qualquer projeto de desenvolvimento.

No ambiente internacional gozamos de um prestígio inédito. O prestígio do presidente da república tem por fundamentos a visibilidade de nosso potencial geo-estratégico. O pleito de uma cadeira no conselho de segurança da ONU, apesar da queda de importância desse organismo, é não só legítimo como, ouso dizer, inevitável mais cedo ou mais tarde, dada a nova configuração do cenário internacional. São diversas as análises que nos colocam como “a bola da vez”, ou a próxima força significativa no jogo dos estados nações. Além dos diferentes aspectos já apontados, resta ainda a expansão do mercado consumidor, como um dos principais recursos a nosso favor, na conjuntura econômica mundial. Há países em que isto é praticamente residual, especialmente no chamado primeiro mundo, a Norteamérica e a Europa ocidental em especial. Sem expansão do consumo não se sustenta a expansão da produtividade e a ciranda financeira, elementos essenciais ao sistema capitalista.

Diante deste contexto, aqui apenas esboçado, o desafio maior a meu entender, será nossa capacidade de pensar grande. Vamos ver, portanto, alguns aspectos do que isso significa.

Vínhamos em um percurso de várias gerações derrotadas, do ponto de vista político e econômico. A concentração de renda continuada indica o empobrecimento, também constante, de uma grande parcela da população, ampliando uma base social imensa, histórica condenada à condição de indigência. A decadência de uma classe média e a estagnação dos “remediados”, isto é, as famílias pobres mas que sempre pensaram fazer parte da classe média, por ter uma renda estável, mesmo que baixa, e usufruírem alguns serviços públicos, não alcançados por quem se situa abaixo disto na escala social. São famílias trabalhadoras que se sentem acomodadas em sua inserção no sistema produtivo, a ponto de apinarem de forma conservadora do ponto de vista político. Estes acreditam no mito do “fazer-se pelo trabalho”, também chamado de self made man, ilustrados por estrelas empresariais, desportivas e artísticas. No cenário político, o enfraquecimento dos movimentos sociais tem por precedentes o esmagamento das organizações civis durante a ditadura, o frustração em movimentos de massa, como as diretas já, a cooptação de muitas lideranças pelos instrumentos institucionais e pelos governos civis em diferentes níveis.

Uma pequena parcela enxerga, mesmo que de forma parcial e embaçada, sua inserção no processo social e produtivo, e se organiza para formular algum tipo de transformação, ainda que setorial, reformista ou vaga. Estes sofreram derrotas históricas que restam cicatrizadas em nossa cultura, revelados por uma descrença e passividade diante das mais constrangedoras manobras conservadoras. A apropriação do poder judiciário brasileiro pela elite econômica e por quadrilhas despudoradas, assim como o domínio dos meios de comunicação em massa pelo mesmo grupo de interesses, não encontra resistência à altura em quaisquer níveis de níveis de atuação, ressalvadas as raras e louváveis exceções, tanto num quanto no outro campo.

Não aprendemos a manejar nosso próprio futuro, sempre delegado aos déspotas de plantão, sejam civis ou militares, agravados pela truculência e ignorância destes últimos.

Aos sermos convocados pela história a apresentar um direcionamento para a nação e, conseqüentemente, interferindo na conjuntura mundial, nos mostramos ainda incapazes de assumir tal responsabilidade. Poucos de nós dedicaram suas energias a pensar o futuro com vigor, em suas áreas de atuação. Ocupados que sempre estivemos, em garantir a sobrevivência pessoal, a manutenção de seu posto no mercado de trabalho ou anestesiados pelas mais diversas formas de entretenimento, nos vemos diante do novo sem as ferramentas para enfrentá-lo. Mais ainda, isto precisa ser colocado tanto no plano tecnológico e infra-estrutural, quanto no plano psicológico, em que precisamos nos sentir sujeitos e capazes de manejar nossa história. È mais que coragem para agir, é atribuir a si a legitimidade do ato e reconhecer as condições objetivas para a ação.

Pensar grande é uma forma metafórica de nos referirmos a este posicionamento. Tomar como preocupação individual e coletiva os problemas que afligem grandes contingentes populacionais ou que se situam estrategicamente no rumo buscado por nós mesmos. As mais diferentes formações intelectuais e tecnológicas, ofícios de diferentes níveis de exigência em termos de escolaridade, são todos requisitados se verdadeiramente quisermos abraçar uma condição superior à que estivemos submetidos até então. Não significa, necessariamente, competir com quem quer que seja, ainda que interesses conflitantes certamente vão nos contrapor no caminho. Pensar e Fazer melhor, mesmo parecendo um slogan de uma campanha piegas, é uma máxima necessária às mais diferentes formas de atuação social e profissional.

Se estamos prontos para esse desafio? Creio, lamentavelmente, que não. Se vamos, ao menos desempenhar, mesmo que de forma frágil, este papel? Nutro a esperança e aposto todas as minhas forças para que isso aconteça, até porque este pode ser o sentido mais rico da vida de nossas gerações. A pretensão transformadora de superação e a generosidade humana me parecem as características mais valiosas tanto nos indivíduos quanto nas nações. Não podemos afirmar com segurança que os temos mas podemos nos empenhar para que isso aconteça, como é o caso desta provocação reflexiva. Espero que nos faça pensar a todos!